Wednesday, January 31, 2007

caritas

Só o amor nos salva. Aquele que toma corpo diante de cada caso concreto e não o que se exprime em princípios abstractos de espectro tão largo como os antibióticos. Nem a política, nem a profissão, nem o conhecimento, nem o poder - nada disso ficará. Só o amor a cada uma das mulheres e a cada um dos homens que sofrem permanecerá. Talvez seja isso que levou São Paulo a dizer que a caridade é mais importante que a fé e a esperança.

Monday, January 29, 2007

no pasarán

Leu-se ontem nas nossas igrejas mais um discurso incendiário: "Ainda que eu conheça todos os mistérios e toda a ciência (...), se não tiver amor, de nada me aproveita." E não bastava esta provocação, ainda se acrescentou que "as profecias terão o seu fim, o dom das línguas terminará e a ciência será inútil. O amor jamais passará." Em tempo de choques de certezas absolutas, este cântico do amor cobre de ridículo todas as proclamações definitivas.

Friday, January 26, 2007

o clube

Pedro e os outros discípulos ficaram frequentemente desapontados com Jesus. Em vez de lhes agradecer o apoio, Jesus deu-lhes trabalho ingrato. Em vez de os tornar seus conselheiros, enviou-os para todo o lado, para aconselharem homens e mulheres desconhecidos. Definitivamente, Jesus não quis o fechamento de um grupo de fiéis. Preferiu sempre uma Igreja aberta ao mundo.

Wednesday, January 24, 2007

nostalgia

A sombra tutelar do campanário, os ritmos do dia marcados pelo sino, o sentido gregário da pequena comunidade causam nostalgia a muitos cristãos. A trepidação dos shopings e o anonimato das grandes avenidas parecem agredir a condição crente. Mas essa nostalgia é má companheira. Torna a fé num refúgio contra o mundo. Ora, é no mundo, sempre nele, que somos chamados a dar razões da nossa esperança.

Monday, January 22, 2007

fé urbana

Algures no próximo ano, a população urbana passará, pela primeira vez na História, a ser maior que a população rural no mudo. A cidade é o lugar do cosmopolitismo, da descoberta, do arrojo contra o imobilismo. Esse lugar interroga a fé e não a deixa ficar presa a ritmos lentos nem a ambientes bucólicos. Ser crente na cidade é um sobressalto.

Friday, January 19, 2007

dissidência

O cristão é quase sempre um dissidente. Ser fiel à experiência histórica de Jesus impõe caminhos corajosos de distanciamento dos consensos estabelecidos. Em muitas ocasiões, impõe solidões difíceis e incompreensões dolorosas. E sempre, mas sempre, lealdade ao que está para lá do momento.

Wednesday, January 17, 2007

detergente?

A penitência tem cotação baixa nos valores do mundo. É normalmente vista como uma lavagem fácil de faltas sérias. Ou como uma psicoterapia. Como se os crentes pudessem branquear a alma, suja de pecado, com um detergente e sem esforço. A penitência é o avesso disso. É o arrependimento a tomar corpo, é a abertura séria a uma mudança de vida como exigência de redenção. Não há almas branqueadas, há consciências mais vivas e críticas de si.

Monday, January 15, 2007

desenvolvimento

Quando, um dia, o lugar dos velhos na sociedade for assumido como indicador de desenvolvimento, aí o horizonte mudará. Não serão mais estorvos nem curiosidades de museu, mas sim pilares da sabedoria que nos falta. E as sociedades não se afirmarão mais pelo domínio do tempo, mas sim pela sensatez dos seus hábitos. Há uma imensa riqueza de vida que andamos a desperdiçar. Seguramente maior do que todas as dívidas externas e do que todos os défices públicos.

Friday, January 12, 2007

prova especial

É difícil ter um Deus que não manda em nós. É difícil assumir que nenhum dos mandamentos tem sentido sem o pressuposto da liberdade. É difícil aceitar uma religião que não impõe um catálogo de regras às pessoas, antes diz às pessoas que é na sua consciência que tudo se joga, porque aí nada se pode esconder. É difícil ser crente assim. E um privilégio também.

Wednesday, January 10, 2007

paz perpétua

Dá-nos, Senhor, a paz inquieta que não nos deixa estar em paz. Anima-nos a querer a paz da corrente que estrangula entre as rochas, que se corta nas pedras aguçadas mas que abre caminho, e a não nos satisfazermos com a paz do charco que se contenta na estagnação podre. Empurra-nos para a paz da confiança que se constroi com muito risco e afasta-nos da paz que só é guerra exausta. Dá-nos a paz dos sonhos e não a paz das certezas.

Monday, January 08, 2007

programa

Que propósitos temos para este ano? Qual é o nosso programa? A vida não se planifica, flui. Mas deixá-la correr sem assumirmos opções é enjeitar a responsabilidade de lhe dar um rumo. E sobretudo darmos alibis a nós mesmos para, no fim, não termos que prestar contas pelo que fizemos e pelo que ficou por fazer. Tenhamos pois a coragem de nos pormos essa pergunta difícil: que queremos fazer da nossa vida no ano que agora começa?

Friday, January 05, 2007

as prendas

Não vieram à gruta oferecer o seu poder político, nem a sua força militar nem a sua obediência civil. Nada disso faria qualquer sentido para um menino acabado de nascer. Vieram mostrar com humildade a fragilidade que há em todos os poderosos. Não perante outro rei, mais poderoso do que eles. Mas perante o mais frágil dos súbditos. Por isso, a melhor prenda para o menino não foi o ouro do poder mas a simplicidade de querer dar sem contrapartidas.

Wednesday, January 03, 2007

o primeiro dia

Não há, não pode haver, um dia certo para celebrar a paz. Mas começar o ano a invocá-la é uma opção certa. E não pode ser pequena a nossa ambição de cultores da paz. Todas as violências - físicas, mas também estruturais ou culturais - têm um avesso. E é nesse avesso, tantas vezes ignorado porque feito sempre de rupturas com cânones hipócritas, que queremos que se viva um ano inteiro. Ou então de nada valeu a pena dedicar à paz o primeiro dia de Janeiro.

Monday, January 01, 2007

sobressalto

Nada muda só porque começa o ano. E, no entanto, há uma espécie de chamamento à renovação. Abre-se um tempo, de trezentos e tantos dias, para darmos sentido ao que fazemos e darmos gosto ao que vivemos. O arranque do ano não é nada. A não ser um sobressalto de esperança. E isso pode ser tudo.