Monday, June 29, 2009

plural

Nem a Economia é uma disciplina de conteúdos únicos, nem os/as economistas são neutros/as no seu discurso. Se outro mérito não têm, os dois manifestos sobre as escolhas necessárias para a economia portuguesa evidenciam essa diversidade no campo do conhecimento económico. Não há, pois, como é óbvio, um cânone único para falar de economia. Este é um tempo de escolhas e de revelação de convicções fundas. A tecnocracia é um embuste.

Friday, June 26, 2009

sexo

Wednesday, June 24, 2009

corrente de ar

Andres Torres Queiruga, teólogo galego de enorme envergadura intelectual, está sob a mira censória da Comissão para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola. Estão sobretudo em causa os seus dois últimos livros, um em que analisa a ressurreição de Jesus e pede que não se tome o fenómeno de forma literal e outro sobre a revelação, em que reclama um repúdio da figura de Deus como castigador e o regresso à imagem da relação paterna com as pessoas. Todas as ortodoxias tremem com o ar fresco da janela entreaberta.

Monday, June 22, 2009

renovação

"As coisas antigas passaram. Tudo foi renovado". Nas missas em que ontem foram proclamadas estas palavras houve suspiros de saudade pelos bons velhos tempos.

Friday, June 19, 2009

virtudes públicas

A humildade postiça e ensaiada pelo Primeiro-Ministro faz lembrar os liftings que correm mal e deixam as bochechas grotescamente empinadas ou os cantos dos lábios "a la" Joker. Mas, para lá do anedótico, o simulacro de conversão de Sócrates suscita uma questão pouco debatida entre nós: quais devem ser as virtudes públicas numa sociedade democrática e plural? Em tempo de maquiavelismo travestido de humildade, por onde passa a "fortuna" e por onde passa a "virtu"?

Wednesday, June 17, 2009

teerão

Apesar das redes globais de comunicação, Tiananmen repete-se, agora em Teerão. A mesma ânsia incontível de democracia e de transparência, a mesma repressão estúpida e o mesmo silenciamento insuportável. Nas teocracias, os deuses são sempre um mero pretexto. É a aversão dos homens à mudança que as comanda.

Monday, June 15, 2009

o mercado

Os 96 milhões pagos por Cristiano Ronaldo são obscenos. Como obscenos são os muitos milhões que se jogam, em cada defeso, haja ou não haja crise, na compra de jogadores e treinadores. "É o mercado" - dizem os realistas do costume. Têm razão. O mercado pode ser obsceno.

Friday, June 12, 2009

o que tiverdes feito aos mais pequeninos de entre vós...

165 milhões de crianças são hoje notícia. Porque trabalham. E não o deviam fazer. Esperam-se homilias inflamadas, tomadas de posição de movimentos de leigos e textos duros no Osservatore Romano.

Wednesday, June 10, 2009

sont comme les couchons

Querem ser populares? Digam mal dos políticos. Chamem-lhes aldrabões, falsários, carreiristas - terão aplauso de aprovação. Começou nos anos oitenta, pela mão do liberalismo yuppie, a estratégia de desqualificação da política. Nas universidades, nos media, na fala de rua, soprou-se que os políticos não são senão empecilhos ao funcionamento da economia segundo as suas "leis naturais". A política como confronto de propostas de fundo foi atirada pelo pragmatismo frio para o campo da verborreia. Os políticos das jotas puseram-se a jeito. E o resultado é este: a repugnância pela política como outra face do "cada um por si". O elogio da política é hoje um imperativo de resistência.

Monday, June 08, 2009

plural

Ao absolutismo do único, os cristãos preferem a celebração da relação entre três: Pai, Filho e Espírito Santo. A Trindade é o elogio do plural definitivo que repudia no governo das sociedades e no governo da Igreja o totalitarismo e a concentração de poder numa única pessoa. Para os cristãos não há poderes absolutos, há poderes relacionais.

Friday, June 05, 2009

europas

A Europa benfeitora confrontou-se com a Europa ausente por estes dias. De um lado a Europa a quem era suposto todos estarmos gratos por nos ter dado a mesada para nos governarmos e desenvolvermos. Do outro a Europa que não estava lá quando, em crise e em desespero, mais precisámos dela. O "Portugal positivo" e o "Portugal sofrido" são os rostos destas duas Europas. Não se falou da Europa? Não se falou de outra coisa!

Wednesday, June 03, 2009

escolhas

A Europa da "nova evangelização" e da "ditadura do relativismo" tem sido fustigada com sucessivos anátemas pelo Papa. Mas nestes dias de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, em que é tempo de fazer escolhas para a Europa, não se ouviu uma palavra pedagógica do Papa sobre a construção dos caminhos europeus para a dignidade de todos, sobretudo dos mais pobres. Nem consta que os bispos portugueses tenham apelado ao voto contra a abstenção. Essas ausências são também escolhas claras.

Monday, June 01, 2009

segredos

Quem anda em campanha ouve na rua gente que lhe diz em segredo "força", "lute por nós", "não deixe de dizer as coisas que devem ser ditas". O segredo da confidência reforça o peso do pacto entre quem diz e quem ouve. Mas mostra o medo das palavras públicas. Há uma súplica que mostra como a democracia é uma fina camada de superfície na sociedade portuguesa...

Friday, May 29, 2009

périplo

Mais do que a história, a erudição ou a paixão cosmopolita, o que me fica a mim, mais que tudo, deste livro é o combate contra a arrogância na leitura das histórias múltiplas das gentes do Mediterrâneo. Não há em nenhuma das páginas a tentação de enveredar pelo estilo “se o Mediterrâneo fosse um mar a sério…” glosado por quem faz por estes dias da sua visão do país e do mundo a única verdadeiramente séria e que deslegitima todas as demais. Enveredar por esse caminho seria aliás não entender nada do que é, e sempre foi, o Mediterrâneo. Ao contrário, este livro prefere apagar os pré-juízos dos autores e curvar-se diante da construção geológica da realidade, vinda da origem dos tempos, na Mesopotâmia, até hoje. Sendo um acto de cultura, este livro é assim um acto político. Porque faz escolhas fundas e claras. Sou dos que pensam que a verdadeira forma de discutir a Europa é discutir o que ela fez de melhor e pior no mundo e o que o mundo espera que ela faça agora. Agradeço ao Miguel Portas por não ter abdicado de discutir assim a Europa como Atlântida de muito mundo no nosso tempo.

Wednesday, May 27, 2009

novos

João Salaviza no cinema, Valter Hugo Mãe na escrita, Miguel Moreira na dramaturgia - nomes de gente que está a levantar a geração dos quinhentos euros. A Palma de Ouro em Cannes ou o Prémio José Saramago são o outro lado de um horizonte de penumbra que marca o dia-a-dia dos/as muitos/as que não têm nome e só contam (às vezes) para as estatísticas. Este país não é para novos.

Monday, May 25, 2009

silêncios

Não me consta que a Associação Cristã de Empresários e Gestores se tenha pronunciado sobre as declarações acintosas de Belmiro de Azevedo sobre a situação na Auto-Europa. Considerar um escândalo que haja gente que não quer trabalhar ao sábado - mesmo que não seja de todo isso que os trabalhadores reivindicam, mas apenas que o trabalho ao sábado seja pago como a lei impõe que seja - não merece qualquer leitura crítica à luz da Doutrina Social da Igreja?

Friday, May 22, 2009

bénard

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana.

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no fundo não creiamos
mas não lutamos já firme e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

(...)

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
'meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?'

Ruy Belo, 1969

Wednesday, May 20, 2009

o tigre de burma

A bravura dos frágeis sempre foi o pavor dos tiranos. Aung Aan Suu-Kyi, 63 anos, birmanesa, fez da sua vida um combate não violento contra a ditadura que governa com mão de ferro o seu país desde 1962. Por isso passou 14 dos últimos 20 anos da sua vida em prisão domiciliária. Agora vai ser julgada por um tribunal fantoche sem as mínimas garantias. Todos/as os/as que combatem pelos direitos humanos estão a ser julgados/as com ela. Os que, com o seu silêncio cúmplice, dão as mãos à junta militar, são os/as únicos/as verdadeiramente culpados/as.

Monday, May 18, 2009

clareza

"Não mais banhos de sangue! Não mais confrontos! Não mais terrorismo! Não mais guerra! Vamos quebrar o círculo vicioso da violência. Construa-se uma paz duradoura. Que seja genuína a reconciliação. Reconheça-se o direito de Israel a existir. Reconheça-se que o povo palestiniano tem direito a uma pátria independente. Que a solução 'dois Estados' seja uma realidade. Deixemos que a paz se estenda a estes territórios, trazendo a esperança para as muitas outras regiões afectadas pelo conflito". (Bento XVI em Israel)

Friday, May 15, 2009

crises

Não, a crise não apareceu inesperadamente há meia dúzia de meses. Não, a crise não foi provocada pelo desnorte de uns quantos gulosos da finança. E não, a crise não brota do coração maligno de gente pecadora. Vale a pena relembrar, por estes dias, a noção de pecado estrutural e interrogar as causas do seu apagamento no discurso público da maioria dos/as crentes.

Wednesday, May 13, 2009

teste de ferro

Em muitos países, aumentaram nos últimos meses as oferendas à Caritas. O teste à solidez de uma relação de amor faz-se nos momentos de tensão e não nos momentos de acalmia. Também o teste à solidariedade se faz nos momentos de crise e de escassez e não nos momentos de abundância. Definitivamente, o racionalismo individualista do homo economicus mostra toda a sua fragilidade como pressuposto das vidas concretas.

Monday, May 11, 2009

de longe, de muito longe

É fácil ser-se contra os imigrantes. É popular. E é estúpido. Criminalizar os imigrantes ilegais ou reduzir quotas de imigração que nunca foram aplicadas são expressões de tacanhez política e de pequenez humana. Por isso é tão importante que haja gente que dê voz pública à denúncia de que "o carácter excepcional e oficioso dos mecanismos de regularização, a exigência de visto de entrada e o rotundo fracasso da política de quotas têm alimentado uma bolsa de indocumentados/as, que neste momento serão de mais de meia centena de milhar" e de que "estas práticas e políticas em nada favorecem a inclusão dos/as imigrantes na sociedade portuguesa, contribuindo, pelo contrário, para o crescimento trabalho ilegal, para a desumanização das relações de trabalho e para acentuar as desigualdades sociais."

Friday, May 08, 2009

blasfémias

Gente insuspeita de propósitos subversivos põe uma pedra tumular sobre aquela que foi canonizada como a doutrina única sobre a economia: "a direita dizia que os mercados se regulam por si, se ajustam por si, que se houver um problema os mercados arranjam-se por se e muito rapidamente"... Afinal esses dogmas de fé liberal não foram senão uma “luta de classes contra os pobres” feita pelas instituições financeiras, que transferiram os rendimentos da “base da pirâmide para o topo”. Há pouco tempo, isto seria blasfémia, só purificável pelo fogo da marginalização. Mas nem Stiglitz é Joana D'Arc nem o altar neoliberal purifica mais o que quer que seja.

Wednesday, May 06, 2009

pandemias

Em tempo de alertas cíclicos contra pandemias anunciadas, há quem insista em lembrar que 90% dos recursos afectados ao estudo de doenças incidem sobre 10% da carga de doença a nível global. Essa discrepância é o rosto frio da indiferença para com as pandemias do sul, irmã gémea da extrema mediatização das pandemias do norte. Mesmo na morte, há ricos e há pobres.

Monday, May 04, 2009

the thin red line

A linha da violência física não pode ser ultrapassada - à vertigem da destruição do inimigo temos que ser capazes de sobrepor a superioridade da argumentação entre adversários. Mas não pode igualmente ser ultrapassada a linha da violência social - à soberba que dilacera as sociedades com a pretensão de as purificar e corrigir urge contrapor a humildade de envolver as sociedades nas mudanças. Lembremos sempre Brecht: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem"

Sunday, May 03, 2009

saudades

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves!

Eugénio de Andrade

Wednesday, April 29, 2009

a irmã morte

Oiçam com atenção Filipe Almeida, director do Serviço de Humanização do Hospital de São João, no Porto. Em entrevista à "Sábado", mostra com serenidade e lucidez como o/a médico/a deve acolher a morte com a mesma elevação e humildade com que trata a vida. Assim: "Quando alguém decide que um doente é para não reanimar, um dos grandes medos é: 'e se eu for responsabilizado por não o fazer?' E não se percebe que se fizermos o contrário estamos a obrigar o doente a sofrer sem razão. (...) Há doentes que acham que não conseguem suportar mais o sofrimento. Recordo-me de um senhor em fase terminal que não queria que lhe fizessem nada porque sabia que estavamos só a adiar a morte. (Pergunta: 'Essa vontade é respeitada?') -Deve ser".

Monday, April 27, 2009

waterboarding abençoado

Num momento em que a sociedade americana se confronta com o fantasma incómodo da prática da tortura, o Pew Forum on Religion and Public Life mostra que os cristãos americanos (católicos ou evangélicos) não rejeitam essa prática. E mostra também que os/as que mais frequentam a prática litúrgica são os/as que maior índice de aprovação da tortura evidenciam. Da próxima vez que o Papa discursar em Ratisbona, não precisa de rebuscar autores antigos para mostrar que há religiões que convivem com a violência - basta que cite inquéritos de opinião do século XXI.

Friday, April 24, 2009

nota de memória

Faz hoje 35 anos, eu era estudante de um liceu só para rapazes - que isso de juntar os dois sexos era obra de Satanás e só servia para exacerbar as hormonas revoltadas. Nesse meu liceu havia um fantasma: o de irmos morrer a uma guerra estúpida em nome de uma pátria que mandava em nós sen nos dar nenhum carinho. Ah, essa guerra (dizia-nos o fantasma) era provocada por terroristas e com terroristas não se negoceia. Viviamos todos com esse fantasma, sem falarmos muito com ele a não ser para lhe atirar umas pedradas de vez em quando. Nos corredores e recreios do meu liceu passavam de mão em mão papelinhos amarrotados com letras de canções proibidas e partilhavam-se suspiros pela liberdade trazida pelas fotografias dos grandes festivais hippies de Woodstock ou da White, ou pelas leituras às escondidas de livros de bolso clandestinos. Tinhamos professores aterrorizadores e professores magníficos - mas nem uns nem outros viviam sufocados em fichas, indicadores, objectivos e coisas do género.
Faz hoje 35 anos, eu tinha, nós tínhamos medo. Um medo pastoso, cinzento escuro, omnipresente, feito tanto da noção de estar vigiado como do sacrossanto mandamento do respeitinho muito lindo.
Faz hoje 35 anos, os jornais noticiavam um crescimento muito forte da economia portuguesa. Devia ser verdade - pelo menos a avaliar pelas fotografias sorridentes das famílias de bem dos banqueiros e dos comendadores, das chamadas "empresas do regime". É certo que também vi fotografias de gente, de muita gente, a emigrar para os bidonville de Paris. Mas isso era gente "sem eira nem beira" e, por isso, sem direito a atenção dos senhores engenheiros de então.
Faz hoje 35 anos, a filha dos meus vizinhos, um pouco mais velha do que eu, levou uma valente reprimenda do pai por ter chegado a casa à uma da manhã na noite anterior. Ainda por cima cheirava a tabaco! Podia lá ser! Uma rapariga! O que é que iam dizer os outros?
Faz hoje 35 anos, não houve nenhuma greve. Pelo menos não veio no jornal. Parece que houve umas cargas valentes da polícia no Barreiro - era o que se dizia - "para manter a ordem e fazer cumprir a lei".
E, de repente, no meio desta memória magoada, irrompe a pergunta perturbadora do José mário Branco: "Que dia é hoje, hãn?!"
Valeu a pena a manhã seguite? Claro que valeu a pena. Pela emoção e pela lluta, pelo destemor e pela franqueza, pela justiça e pelas palavras - valeu muito a pena. Gracias a la vida por isso. Ah, é verdade: faz hoje 35 anos não houve Conselho Superor na Antena 1.
(Texto lido hoje na rubrica "Conselho Superior", da Antena 1)

Wednesday, April 22, 2009

racismo

Não será por certo uma fastidiosa reunião diplomática que eliminará a estupidez criminosa do racismo. As chancelarias fazem aliás questão de o confirmar em pleno nesta cimeira de Genebra. Os que criaram o racismo, o usaram e usam para reforçar o seu domínio no mundo exibem agora um virginal escândalo diante da acusação de racismo de Israel para com os palestinianos. O país que elegeu Obama - e, com isso, deu alento à denúncia do racismo como insulto à inteligência da humanidade - recusou-se a estar presente por blablabla. Entretanto, o racismo aí está como violação absurda dos direitos humanos. O combate espera por protagnistas. Já se viu que não serão estes.