Wednesday, May 07, 2008

conversão

Em tempo de criminosa espiral dos preços dos alimentos básicos às mãos da especulação financeira, há vozes que não podem deixar de ser ouvidas: "A fome é uma constante de todas as sociedades históricas. Hoje, no entanto, tem dimensões vergonhosas e cruéis. Revela uma humanidade que perdeu a compaixão e a piedade. Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. A condição prévia mais imediata e possível, que deve ser posta imediatamente em prática, é um novo padrão de consumo. (...) Para fazer frente ao consumismo, é urgente que sejamos conscientemente anti-cultura em exercício. Há que incorporar na vida quotidiana quatro 'erres' principais: reduzir os objectos de consumo, reutilizar os usados, reciclar os produtos dando-lhes outra finalidade e recusar o que o marketing, descarada ou subtilmente, nos força a consumir."

Monday, May 05, 2008

memórias

Durante décadas, a militância católica foi uma escola de militância política. Plural, contraditória mesmo. Nem os mecanismos de enquadramento ideológico da ditadura nem muitos dos grupos de resistência tiveram a a capacidade de germinar na juventude o imperativo da política que o activismo católico evidenciou. Em tempos de pueril descoberta presidencial do alegado alheamento político actual dos mais novos, é importante resgatar as memórias de aprendizagem do bem comum e da pluralidade das suas mediações como suportes imprescindíveis da estima pela Política.

Friday, May 02, 2008

primeiro de maio

Os intermitentes, os avençados, os bolseiros, os estagiários não remunerados são os novos rostos do proletariado. Sim, o proletariado existe, para irritação dos senhores que debitam acefalamente que a diferença entre a esquerda e a direita é coisa do passado. Há uma nova "questão social" que marca fundo o nosso tempo. Ela é feita de falta arrepiante de horizontes de vida para a gente mais nova e mais promissora. O discurso da Igreja para hoje ou é feito de esperança concreta para estas pessoas ou soa a falso.

Wednesday, April 30, 2008

tinha fome e destes-me de comer

A fome está aí como desafio indisfarçável. Habituámo-nos à alta do petróleo, à inflação, aos salários congelados. Mas nunca nos imaginámos a ver o preço do trigo com a mesma oscilação que as cotações do Nasdaq. O capitalismo é louco, é assassino e o mercado é um ídolo cuja adoração é ímpia. Na Universidade Católica, o que ensinam os economistas sobre este problema?

Monday, April 28, 2008

nunca tenho dúvidas e raramente me engano

A relação de Jesus com os apóstolos esteve longe de ser a de um harmonioso grupo de amigos. Pedro e os outros levaram nas orelhas muitas das vezes em que abriram a alma com ele. Balde de água fria quando se encantaram com a transfiguração; reprimenda quando desconfiaram que o barco ia afundar; denúncia das fraquezas quando se adivinhou a perseguição e a morte; e um irritado "não me vedes a mim?" quando lhe pediram para que lhes mostrasse esse Pai misterioso. Por estas e por outras, causa-me sério desconforto o Deus que dá certezas e dogmas a alguns príncipes em vez de causar dúvidas e sobressaltos.

Friday, April 25, 2008

sempre

Para quem era adolescente em 1974, esta é a data da memória do primeiro amor. Que incendiou tudo cá dentro, que deu febre e vertigens, que fez chorar, que motivou viagens inesquecíveis ao que não conhecíamos de nós mesmos. Não é a nostalgia que hoje nos invade. É a presença quente desse primeiro amor que nunca nos abandona. Que viva! Sempre!

Wednesday, April 23, 2008

eucalipto

Não sei é por ser véspera de 25 de Abril Mas arrepia-me a referência à Verdade, no singular e com maiúscula. Venha de onde vier. Essa eucaliptização do raciocínio e das relações mete-me muito medo. O inverso de um mundo sem Deus não é a sua assumpção totalitária. É o seu sopro insinuante por muitas frestas da realidade. Acho que é isso que fez Jesus falar das muitas moradas do Pai.

Monday, April 21, 2008

desencanto

Hão-de vir outra vez falar da juventude e do seu desencanto da política. Hão-de vir, de cátedra, dizer que não foi isto que sonhámos há 34 anos. Terminado o discurso, receberão a chamada dos "congéneres europeus" a felicitá-los pela ratificação "pacífica" do tratado. E passarão pelo escritório para fazer as contas da rapaziada que lá trabalha a recibo verde.

Friday, April 18, 2008

ar fresco

"A minha condição crente convida-me, sem me obrigar, a não optar pelo pedido de eutanásia, mas não tenho o direito de impor esta posição numa sociedade plural, apenas de pedir que me respeitem, do mesmo modo que eu respeito quem, seja com religiosidade ou sem ela, defenda a opção contrária." Há quem assim pense. Ainda bem.

Wednesday, April 16, 2008

fantasmas

Agora é a ameaça de "um Estado militantemente ateu". Temo que os bispos portugueses se preparem para dar bónus ao jacobinismo primário em tempo de celebração dos 100 anos da República. Na missa do regicídio como no fantasma da perseguição é a mesma visão martirológica e reaccionária que se afirma. Simétrica em tudo dos complexos infantis contra "a padralhada". Gente adulta não tem medo de fantasmas.

Monday, April 14, 2008

morais

Uma moral de receitas contra uma moral de diálogo, avisa Juan Masiá. O primado da "ordem moral objectiva", "vigente sempre e em qualquer parte independentemente das circunstâncias", contra o esforço de discernimento de uma ética a partir da vida dos homens e das mulheres concretos/as e das suas tristezas e angústias, alegrias e esperanças. A rigidez do cumprimento dos mandamentos ou a intemporalidade da centralidade do amor ao próximo, mediada pelos caminhos da vida. Eis a questão.

Friday, April 11, 2008

ameaças

Tranquilizemo-nos: o Presidente da Conferência Episcopal afirma que "neste momento a Igreja em Portugal não está numa situação de atacar, mas de diálogo". O diálogo não é, pois, uma opção convicta mas uma fatalidade circunstancial. por falta de força momentânea. Porque se estivesse em condição de atacar...

Wednesday, April 09, 2008

segurança humana

Vivem tranquilos e seguros, com a certeza nos seus catálogos morais e na sua completude. Não há problema difícil da vida que não esteja previsto nesses compêndios sem fim que eles conhecem de cor. Têm tabelas exaustivas de princípios e regras. Só lhes escapa uma coisa pequenina: o indomável da vida, dos seus sofrimentos e das suas alegrias. Nada que lhes roube o sono.

Monday, April 07, 2008

sonho

"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos?Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
Pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

Friday, April 04, 2008

bio ética

"A vida é como uma estrada / que vai sendo traçada / sem nunca arrepiar caminho. / E quem pensa estar parado / vai no sentido errado / a caminhar sozinho..." (José Mário Branco, "Do que um homem é capaz")

Wednesday, April 02, 2008

o nome da coisa

O peso da fatalidade é insuportável. E esse é o mais terrível dos alibis desresponsabilizadores. Pintamos de "natureza humana" demasiadas coisas que são só produto da nossa acção e da nossa vontade. E assim as fechamos no baú do imutável. Houve um tempo em que chamávamos a isso alienação.

Monday, March 31, 2008

dinossauros

Ele confessa-me, meio desanimado, que não consegue achar novidade no progressismo católico quando o compara com as esperanças que viveu há 40 anos. Não chega a ser desânimo, porque há muito que deixou de ter a angústia da pertença ao "redil". Eu lembro-lhe que o porta-voz da conferência episcopal repetiu ontem o discurso de que "há forças dentro do Governo que têm uma postura de ataque à Igreja Católica e penso que falta, da parte do primeiro-ministro, uma vigilância coordenadora de actos e medidas avulsas que ferem e atingem quem anda há muito a servir a população" e que "o Estado tem a obrigação de reconhecer o papel social da Igreja e de o promover do mesmo modo que promove o desporto, ao apoiar a construção de estádios". E a nossa conversa segue sobre os dinossauros do poder autárquico e do futebol.

Friday, March 28, 2008

depois

Um Nobel da Medicina escreveu que é imperioso ver o invisível para fazer o impossível. É preciso ver para além do que se mostra. Há demasiada realidade na penumbra para que a possamos esquecer. Somos muito mais ignorantes do que alguma vez pudemos pensar. E resignados também. Fazer os possíveis é pouco mais do que perpetuar o que está. É cada vez mais o impossível que nos é pedido.

Wednesday, March 26, 2008

litigioso

Pois, pá, o amor é coisa rija, não é lamechice. Sentimento ma non troppo. Mas eles já não se podem ver... Paciência, é nos momentos difíceis que se testa a solidez do casal. Está bem, mas eles não se falam a não ser com duas pedras na mão... E isso é novo? Estados de alma não são chamados para a missão de defender as instituições. E o que está em causa, meu caro, é a defesa da família como pilar da sociedade. Mas... Não há mas nem meio mas, pronto.

Monday, March 24, 2008

grãos

O Programa Alimentar Mundial alerta para um fosso crescente entre as disponibilidades actuais de cereais e aquilo que é necessário para socorrer as multidões famintas. Os preços mundiais do trigo e de outros cereais sobem em flecha. A margem especulativa desencadeada pelo boom dos biocombustíveis e pela mercadorização crescente na China afloram nas explicações correntes. Diante do novo mercado da fome, haja quem diga que há princípios sem preço. Como o do destino universal dos bens.

Friday, March 21, 2008

sempre

"Ainda que as trevas proclamem vitória, / o grande segredo da noite / é estar grávida do amanhecer." Assim escreve o poeta. Só faz sentido esta sexta feira, porque virá o domingo. Só faz sentido a morte porque virá a vida. Sempre.

Wednesday, March 19, 2008

bagdad

Há cinco anos que a guerra mata no Iraque. Em nome da democracia, dos direitos e liberdades, da paz, fez-se uma guerra sem vergonha nem fim. Morre-se em Bagdad mas é em todo o mundo que aquela guerra mata esperanças e horizontes de decência. Perdoa-nos Pai pelo efeito letal que esta guerra está a deixar na memória de gerações inteiras.

Monday, March 17, 2008

dores

Um amigo com cancro, adulto na vida e na fé, disse-me ontem: "Quando me dizem que o meu sofrimento é expressão do amor de Deus, eu fico a pensar que era mesmo bom que Ele não gostasse tanto de mim assim...". A idolatria da dor tem tanto de infantil como de pecado. Como se merecesse mais quem mais sofre. A semana santa não pode ser um hino prolongado ao dolorismo. A cruz só faz sentido quando se prolonga no sepulcro vazio.

Friday, March 14, 2008

o que fica

Depois da crítica moderna à condenação de Galileu, que restará do cristianismo? Depois da crítica feminista à misoginia do clero, que restará do cristianismo? Depois da crítica cristã à burocratização da igreja, que restará do cristianismo? Adorno perguntava se podia haver poesia depois de Auschwitz. Apanhemos a boleia e perguntemos se pode haver cristianismo depois de todas essas críticas. O cristianismo é parte da crítica ou parte do criticado?

Wednesday, March 12, 2008

tabuada

A noção de pecado não pode permancer refém de uma cultura ética e teológica infantilizada. Não há nenhum cardápio de pecados como se fosse um de catálogo de produtos de super-mercado. Juntar a agressão ao ambiente ao elenco dos pecados pode ser tão imaturo como retirar dele o "dizer palavrões". Há uma consciência do bem comum que importa trabalhar na Igreja. Esse trabalho é que é difícil e nunca poderá ser substituido por uma qualquer tabuada dos pecados.

Monday, March 10, 2008

liberdade ou verdade, depende

"Gustavo Bontadini, pensador católico italiano, dizia que a Igreja quando está em minoria, fala de liberdade e, quando está em maioria, fala de verdade. A tal ponto que eu, a brincar, queria fundar o movimento anti-clerical cristão.Eu não quero desprezar a Igreja. Queria que a Igreja fizesse menos pressão. Frente à secularização, a Igreja sente-se mais ameaçada e pressiona mais, o que provoca o efeito contrário [ao pretendido]." Palavras sábias de Giovanni Vattimo, em fascinante entrevista a António Marujo, no Público de ontem. Sem mais comentários.

Friday, March 07, 2008

por que te callas? (ii)

Não têm os nossos bispos uma palavra que seja para dizer no actual debate público sobre a educação em Portugal? Não está, para eles, em causa um assunto de importância fundamental para a sociedade portuguesa e para o povo de Deus? Ou será que os bispos só falam de educação quando se trata de assuntos relacionados com o ensino público da Moral e Religião e com a "liberdade de ensino" (leia-se a intocabilidade das escolas confessionais católicas)?

Wednesday, March 05, 2008

escolhas

"A teoria é sempre para alguém e para alguma finalidade", escreveu Robert Cox. Não há conceitos neutros nem linguagem isenta. Em cada palavra, em cada construção de ideias, é um horizonte que traçamos, é uma opção que desenhamos para nós mesmos e para os outros. O refúgio na equidistância é sempre uma tentativa de disfarçar a escolha que fizemos.

Monday, March 03, 2008

dogmas

Ai de quem se afirme contra a inevitabilidade de reformas! Terá sobre si o estigma do imobilismo ou, pior, da conservação de privilégios próprios. Há um novo e pesado maniqueismo na sociedade portuguesa: de um lado a mudança, do outro a prudência. O rolo compressor da primeira é a imagem invertida do medo que habita a segunda. Mudar para quê? Conservar o quê? São as duas perguntas mais difíceis do nosso tempo. O discernimento é o quê?

Friday, February 29, 2008

católicos, apostólicos, romanos

A linguagem é um dos alçapões mais fundos da presença pública da igreja. É também nela que se materializa a ortodoxia fechada à mudança. E, por isso, os guardiões da ortodoxia são zelosos guardiões da linguagem dogmática e unicitária. No oriente como em África, e sempre que a especificidade das construções culturais o exige, a cúria romana recusa, por princípio, adaptar a linguagem do cerimonial litúrgico e dar-lhe especificidade. A recuperação do Latim não é uma questão estética, mas uma expressão de poder. Mais romana que católica, a cúria. E muito, mas mesmo muito pouco apostólica.