Wednesday, November 29, 2006

destroços

À amiga que contemplava os destroços da sua casa esmagada pelas bombas, ele escreveu: "Guarda a raiva mas afasta o ódio, para que possas perdoar sem esquecer." Enganou-se nas palavras? Não, apontou o caminho certo, o único que quebra a espiral da desumanidade. Que ele seja um não crente, é um sinal.

Monday, November 27, 2006

Cristo Rei

O Rei que ontem louvámos não impôs o trono pela espada nem o recebeu por linhagem dinástica. Cristo não foi monarca nem príncipe e lembrou sempre que o seu reino não é deste mundo. É um rei sem mando, embora haja quem lhe queira dar um poder temporal que ele sempre rejeitou. Governa as nossas vidas porque o queremos assim. Em consciência. Em liberdade. E isso faz dele o mais amado dos reis.

Friday, November 24, 2006

estranho bem

Tolerar não é aturar. Porque a diversidade não é um defeito. Tolerar é ter estima pela diferença. Porque a diferença que dignifica é um bem. Há por aí muito mais intolerância do que se supõe. A começar pelos cristãos, tantas vezes incapazes de combinar a unidade essencial em Jesus Cristo com a experiência enriquecedora da diversidade.

Wednesday, November 22, 2006

evasão

Li o escrito de um amigo que dizia: “quem quiser saber quem é, coloque-se frente à pergunta: o que faria se soubesse que amanhã vou morrer?”. É isso mesmo. Procuramos distracções em série para não termos que pensar nisso, para não nos confrontarmos com quem somos. Vai ser assim, de novo, no Natal que se aproxima. O que podia ser um tempo privilegiado para revermos a nossa vida vai ser um mergulho de evasão e de frenesi social. Para não pensarmos no essencial.

Monday, November 20, 2006

verdades

Mentir bem tornou-se num comportamento social e politicamente digno de elogio. Quando o triunfo individual é a medida de todas as coisas, manipular a verdade, deturpá-la e construir uma verdade adaptada à nossa ambição é algo tido como prova de grande competência. Uma verdade feita de mentiras , eis o primeiro dos mandamentos da conveniência social.

Friday, November 17, 2006

a mão que embala o berço

Nenhuma guerra é justa. Os números sobre crianças-soldado só tornam esta condenação mais imperativa. 350.000 é um cálculo por baixo. E o que mais choca não é o envolvimento de meninos de sete e oito anos na indústria da morte. É a total falta de horizontes que, nos seus países, os leva a adoptar esse modo bárbaro de luta pela sobrevivência e pelo reconhecimento social. O que choca, portanto, é que as crianças-soldado são fruto de quem, do lado rico e confortável do mundo, alimenta essas condições. Os mesmos que falam de guerras selvagens no terceiro mundo.

Wednesday, November 15, 2006

sinais

Um padre que disputa um concurso televisivo com alegria e sem interesse próprio. Outro que se dispõe a beber uma cerveja com os presos que o sequestraram e ameaçaram durante horas. No tempo mediático, estes foram dois sinais fortes de diferença. Mais do que mil discursos de teologia com rigor milimétrico, o testemunho simples e claro destes dois homens ajudou a que o olhar de muitos resultasse em interrogação séria. O mundo, perturbado e turbulento, é um lugar de salvação. E ela passa pelos caminhos mais imprevistos. Como um concurso televisivo ou o bar de uma prisão.

Monday, November 13, 2006

escolhas

Tinha tudo para ser uma médica bem sucedida. Mas à competição pelo melhor lugar na especialidade preferiu o abanão do serviço numa comunidade perdida do mundo, em S. Tomé. A vida virou pela primeira vez. E podia ter sido uma cooperante bem sucedida. Mas às políticas pré-formatadas dos doadores preferiu a aprendizagem atenta e humilde com aquelas gentes que nada têm. E a vida virou outra vez. Não sei se virá a ser feliz. Mas há um brilho naqueles olhos que me interpela.

Friday, November 10, 2006

que força é essa?

É difícil compreender o sofrimento. Mas talvez mais difícil ainda é compreender a força dos condenados. Diante dos impressionantes testemunhos de fé e de tenacidade de quem se confronta com o horizonte da morte, há muitas certezas que são abaladas e todo um modo de dar prioridades à vida que deixa de fazer sentido. A esperança a sério é uma arma de agitação.

Wednesday, November 08, 2006

vozes

Quando ter trabalho passa a ser um privilégio, quando ter assistência médica ou direito a uma reforma se tornam regalias, quando uma justiça justa no tempo e na substância é vista como um luxo, então é a dignidade mesma que deixou de ser o centro. Foi sempre em tempos assim, de provação no deserto, que a força da palavra profética se fez sentir. Estamos nós verdadeiramente atentos a todas as vozes que soam hoje, sobretudo de onde menos se espera?

Monday, November 06, 2006

maioria

De vez em quando aparece em força o argumento de que a sociedade portuguesa é maioritariamente católica. Dá que pensar como pode uma sociedade maioritariamente católica conviver com os números da pobreza que são conhecidos. Ou como pode uma sociedade maioritariamente católica ter a corrupção ou a violência doméstica como comportamentos disseminados. As estatísticas são cegas, é sabido. Mas nunca ocultam as verdades que doem.

Friday, November 03, 2006

defuntos

Morre-se longe, para não incomodar. Não se fala da morte, para não entristecer. Só os novos, frescos, bonitos e saudáveis serão enaltecidos. Na sociedade da exibição, o sofrimento é tabu, o corpo que traz problemas é posto na sombra. Na sociedade dos enganos, não vale pensar na morte, para não pensarmos a fundo na vida que temos.

Wednesday, November 01, 2006

os santos todos

Hoje é dia de todos os santos. Daqueles que dão de comer a quem tem fome, sem publicidade nos jornais. Daqueles que defendem os presos da tortura e do esquecimento, sem direito a tribuna ou a homenagem. Daqueles que a sociedade de boas famílias cristãs considera maluquinhos por defenderem, sem transigir, os direitos humanos de todos. Daqueles que fazem da política um lugar de nobreza e de luta com os pobres. São esses todos que hoje louvamos.